Bastidores da hotelaria em Aparecida: o podcast que revela os desafios reais do setor

Recentemente fui convidado pelo canal O Conselheiro, do Fábio Cardoso, para participar de um podcast sobre os bastidores da hotelaria em Aparecida. Ao meu lado, o Diego Silva — colega que também atua na área comercial da hotelaria da região. Foram quase 1h20 de uma conversa franca, técnica e, ao mesmo tempo, profundamente humana sobre o que acontece atrás do balcão de recepção dos hotéis da capital da fé.

Este artigo é um convite para você assistir à entrevista completa abaixo e, ao mesmo tempo, um resumo dos 5 pontos mais importantes que debatemos — aqueles que todo viajante, romeiro e hoteleiro deveria conhecer.

O episódio completo

Vídeo publicado no canal O Conselheiro, com autorização para incorporação no Travel Map Hub.

1. A maior dor da hotelaria em Aparecida: mão de obra

Logo de entrada, o Fábio nos fez a pergunta que todo hoteleiro ouve todo dia: “Qual é a maior dor do hoteleiro hoje?” A resposta foi unânime entre mim e o Diego — mão de obra capacitada.

Aparecida tem um desafio peculiar. A região é economicamente rica (indústrias, comércio forte, turismo), o que significa que o trabalhador tem muitas opções de emprego. A hotelaria, porém, exige uma dedicação diferente: não é um trabalho de 8h às 18h, sábado e domingo em casa. Exige finais de semana, feriados, madrugadas — especialmente em outubro, quando a cidade recebe 200 mil romeiros por final de semana.

O ciclo que descrevemos no podcast é real e cruel: o hotel contrata, treina por 2-3 meses, o colaborador sai para outra oportunidade, e tudo recomeça do zero. A consequência? O hóspede chega e encontra um recepcionista que não sabe indicar o horário da missa, não sabe se tem Uber na cidade, e precisa ligar para o gerente para responder perguntas básicas.

Da esquerda para direita Diego Silva, Fabio Cardoso ao cenro e Lucas Nogarotto a direita.

Da esquerda para direita Diego Silva, Fabio Cardoso ao cenro e eu, Lucas Nogarotto a direita.

2. O “José da Silva” e a falta de sistemas operacionais

Um dos momentos mais divertidos (e reveladores) do podcast foi quando contei o caso clássico dos hotéis que ainda operam no caderno. Sim — em 2026, existem, alguns, hotéis em Aparecida que registram hóspedes apenas pelo primeiro nome, sem CPF, sem sistema operacional.

O problema real aparece quando chega um grupo de romeiros e dois ou três se chamam “José da Silva” por exemplo. A recepção entrega a chave do quarto para o primeiro José, chega o segundo José, e ninguém sabe quem é quem.

Isso não é apenas uma falha operacional — é uma falha de segurança. Se ocorrer um incidente com um hóspede e uma autoridade precisar de informações, o hotel não terá como fornecê-las. É por isso que a modernização (sistemas operacionais, registro com CPF, endereços e contatos de emergência) não é uma questão de “luxo” — é uma questão de segurança para o hóspede e para o hoteleiro.

3. O romeiro tradicional vs o hóspede eventual

Este foi o ponto mais profundo da conversa. O Diego trouxe uma observação que eu vivi inúmeras vezes na gestão de hotéis: o colaborador que está acostumado a atender o romeiro (que vem há 15 anos, senta no sofá, tira o sapato, se sente em casa) não sabe lidar com o hóspede eventual (que chegou da Disney na semana passada, reservou pelo Booking, espera padrão internacional).

Os dois hóspedes são igualmente importantes e merecedores de respeito. O erro não está em nenhum dos perfis — está na falta de treinamento da equipe para ler cada hóspede e ajustar o tom do atendimento. O romeiro quer familiaridade; o eventual quer eficiência. Mesma equipe, mesma qualidade, tons diferentes.

Escrevi um artigo completo sobre esse tema, que você pode ler aqui: [Romeiro tradicional vs hóspede eventual: o desafio de receber dois mundos no mesmo hotel]

4. O gerente que é “espelho do dono” (e por que isso trava a hotelaria)

No minuto 35 do podcast, debatemos um problema estrutural de Aparecida: muitos gerentes de hotel são promovidos pelo tempo de casa, não pela competência. O recepcionista que trabalhou 15 anos na recepção, passou pela cozinha, e foi promovido a gerente — sem nunca ter recebido treinamento estratégico.

O resultado? O gerente vira um “espelho do proprietário”. Ele gerencia do mesmo jeito que o dono sempre gerenciou. Nada muda. Isso não é um problema, mas não deve ser o foco do trabalho do gerente, mas sim o de trazer uma visão diferente da visão do proprietário, mais estratégica. Ao final aquele colaborador de ouro, as vezes com muitos anos de casa, acaba se sentindo desmotivado, sentindo que não é capaz, mas na verdade ele é o melhor no que fez a vida toda, a operação do hotel, mas poucas vezes consegue ter a visão estrat´gica de mercado.

A consequência para o hóspede é direta: o hotel não evolui. O colchão envelhece, o café da manhã não melhora, o Wi-Fi é lento — porque ninguém com visão estratégica está olhando para esses indicadores.

5. A espiritualidade como diferencial competitivo

O ponto mais inesperado do podcast — e talvez o mais bonito — foi quando a conversa derivou para a espiritualidade. Eu e o Diego compartilhamos como a fé e a vivência comunitária (ele no ministério de música, eu na catequese e liturgia) moldaram a forma como lideramos equipes na hotelaria.

A ideia central: trabalho é expressão de propósito. Um gerente que enxerga o colaborador como pessoa (e não apenas como função) cria um ambiente onde o hóspede é tratado com genuína humanidade — não com um script decorado.

Isso não significa “falar de Deus no hotel”. Significa tratar o recepcionista, a camareira e o garçom com o mesmo respeito que se trata o hóspede. Porque, no fim das contas, a qualidade do atendimento que o romeiro recebe no balcão de recepção depende diretamente de como a equipe é tratada nos bastidores.

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Por que este podcast, Bastidores da hotelaria importa para você, viajante

Se você está planejando uma viagem a Aparecida, entender esses bastidores pode mudar a forma como você escolhe seu hotel e como avalia o atendimento que recebe. Um hotel bem administrado — com sistemas modernos, equipe treinada e liderança estratégica — entrega uma experiência completamente diferente.

Assista ao episódio completo acima. Se tiver dúvidas ou comentários, deixe abaixo — eu mesmo respondo.

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